Ação 000  

VÂO – Espaço independente de arte, São Paulo - SP, 2018

Texto por Marcelo Amorim

A ação propunha que os três artistas ( Marcelo Brasiliense, Thais Stoklos e Dudx) criassem trabalhos temporários com materiais que estavam em descarte ou que particularmente não tem um alto valor agregado. Os trabalhos sofriam constante transformações e a partir da intervenção coletiva e individual em momentos alternados de cada artista, se criavam provocativas e respostas a diversos estímulos. 

 

"Quando eu vi o trabalho do Marcelo sobre a mesa, pelo que eu lembro era uma reprodução enorme em xerox de uma imagem pornográfica gay protegida por um saco plástico finíssimo e que tinha sofrido intervenções com cola colorida e purpurina, eu pensei: que coisa horrível! E maravilhosa. Lembrei imediatamente do Dudx que também acumulava dezenas de objetos vindos da caçamba para criar assemblages sem pé nem cabeça. Uma bagunça! Uma delícia! Um alívio! Pensei: acho que eles precisam se conhecer. Parece que no dia em que eles se conheceram encontraram a Thais no meio do caminho. Por acaso ela também andava fazendo colagens que à distância pareciam delicadas e etéreas, mas de perto notava-se que eram compostas por refugos de espuma, tule e papel laminado. Fiquei pensando: por que será que eles gostam tanto de lixo?

 

Mas é tudo lixo? Os materiais que eles usam são precários? Pensando bem, não exatamente – mas sim, podemos pensar que eles são não-artísticos, marginais a este sistema. Alguns se reportam diretamente ao excesso de onde surgiram, são descartes de uma vizinhança rica que consome avidamente uma indústria rápida. Estamos na Vila Madalena, querida, até o lixo aqui é rico…

Outros materiais não vêm do descarte. Eles são apenas materiais subestimados. Não têm o valor da despesa, nem a qualidade de durar, não têm uma característica distintiva. Parecem ter vindo da indústria e por isso têm uma banalidade intrínseca, não parecem especiais o suficiente para dar corpo a uma obra de arte.

Mas afinal o estético foi isolado em uma esfera própria e parece que deixou à vida apenas a opção de ser feia e maçante. Essa separação da arte que prometia protegê-la da sujeira do mundo em um lugar seguro acabou apenas criando lugares cada vez mais estéreis, esvaziados. Parecem hospitais, sabe? Parecem limpos, mas eu sempre desconfio muito de que estejam na realidade contaminadíssimos.

 

A constatação de que esse lugar de pureza não existe devolve o mundo inteiro aos artistas. Se não resta nada concreto a fazer, ainda cabe o gesto simbólico de ressignificar esse mundo-mercadoria. Materialidade e maravilhamento. O desafio de encontrar sentido e talvez beleza nesse empilhamento de descartes que não pára de crescer.

 

Como um artista pode fazer valer uma expressão que se deseja urgente? Sem tempo para passar pelos trâmites dos editais, sem recursos para cumprir a exigência mercadológica do acabamento perfeito e duradouro, sem vontade de buscar uma visualidade espetacular e ainda sem a bênção de um carimbo institucional que legitime?

 

Em um mundo que muda de estado tão rapidamente, artistas querem responder de imediato. Não temos tempo. Ao excesso de materiais a nos soterrar, um processamento mais rápido e mais urgente. À falta de perspectiva de mercado, dar prioridade às ideias e à expressão. Tudo aqui está à venda, mas eu sei que você não vai comprar – afinal, era seu e você jogou fora."

 

Marcelo Amorim