Da tendência das espécies de formar variedades

Galeria Virgílio, São Paulo - SP, 2019

“A água anônima sabe todos os segredos. (...) Em vista dessa necessidade de seduzir, a imaginação trabalha mais geralmente onde vai a alegria, no sentido das formas e das cores, no sentido das variedades e das metamorfoses, no sentido de um porvir da superfície.” 

Gaston Bachelard, em A Água e os Sonhos.

 

Como primeira convidada a ocupar o Corredor de Cima da Virgílio, a paulistana Thais Stoklos traz para sua residência e exposição a série de objetos e “pinturas” em tecidos variados, onde cores, brilhos e transparências constroem um universo lírico, como se estivemos nas profundezas de um oceano.

 

Ao mergulharmos em sua poética, cheia de volumes e sugestões de seres abissais deixamos nos levar pelos mistérios das variedades e descobertas onde o ambiente e os contrastes dos pigmentos recriam formas desconhecidas para aqueles que vivem na superfície. É preciso ir até o fundo para resgatarmos a vitalidade necessária para sobrevivermos aos tempos de mudanças antagônicas, entre a ética e o caráter vigentes, e procurarmos manter o equilíbrio. Thaís pereniza a importância do sutil na fugacidade do contemporâneo, como havia notado quando conheci seu trabalho a dois anos atrás.

Seja nas fotografias, nos vídeos ou nas colagens a artista experimenta a pintura, esparramando, misturando e sobrepondo traços e cores. Aqui, focada principalmente na matéria têxtil, entre volumes e texturas, a artista cria um universo próprio e delicado de “espécies”, onde o deleite visual fica por conta dos brilhos e das construções sugeridas.

 

Renato De Cara

Novembro de 2019.

“Ao encontrarmos esse animal e seu abismo, saltamos de repente para um outro mundo. Este salto é a metáfora que constitui a ficção filosófica. Essa ficção mostra que a arte humana não implica apenas, como fazem crer burgueses bem-pensantes, a fabricação de objetos belos, mas também e talvez principalmente o gesto pelo qual o homem imprime sua vivência sobre o objeto a fim de nele se realizar e se imortalizar: ‘todo objeto destarte informado é obra de arte, seja ele equação matemática, instituição política ou sinfonia’”.

Gustavo Bernardo em Vampyrotheutis infernalis, de Vilém Flusser e Louis Bec