Sol, estou acordada

Galeria Arte Formatto, São Paulo - SP, 2019

Transparências, texto crítico de Júlia Lima

Estabelecer diálogos coerentes entre as produções de artistas contemporâneas tão distintas pode impor-se como difícil tarefa – contudo, convergências e tensões potentes são reveladas na aproximação das preciosas aquarelas de Marlene Stamm com as luminosas composições têxteis de Thais Stoklos. 

Este encontro, menos inesperado do que se poderia imaginar, firma-se em um aspecto material dos trabalhos: a transparência. Essa qualidade, igualmente concreta e intangível, é explorada por Stamm em leves desenhos aquarelados, fluidos, às vezes intencionalmente inacabados. Já Stoklos experimenta combinações de tecidos finos que encontra e coleciona e, depois, sobrepõe em investigações sobre clareza, volume, contraste e cor.

Mas não é apenas na materialidade que esses trabalhos se avizinham. Stoklos faz referência aos estados de dia e noite, luz e sombra, entendendo a transparência não apenas como as relações entre as camadas de panos, mas também como imagem poética que se desdobra dos trabalhos. Já Stamm abre a mostra com “Uma hora de luz”, um conjunto de pequenas aquarelas nas quais retrata dezenas de fósforos queimados – repetidos gestos executados pela artista para dar corpo à passagem do tempo.

Ainda que um tanto distantes em sua esfera formal – entre a figuração e a abstração, entre o bidimensional e o tridimensional, entre a narrativa e a matéria – as obras dessa exposição provocam o olhar, ora nos surpreendendo com novas cores e texturas , ora nos prendendo a elementos estranhamente familiares representados de maneira tão realista quanto etérea.